Iná Brasílio de Siqueira

 FLOREZINHAS DE NHÁ CHICA

Início da Primavera… Meu jardim já tem alguns manacás e gardênias em flor, que deixam o ar deliciosamente perfumado. É temporã a florada, é claro; com certeza devido à grande mudança climática por todo o planeta.

            Saí com meus netos, para mostrar-lhes, ao longo do caminho, flores anãs nos interstícios das pedras regulares-irregulares, que fazem a tessitura cinzenta do calçamento de minha cidadezinha interiorana. Nestas ruas estreitas, passei minha infância, corri atrás de meus sonhos infantis e joguei pedrinhas de inocência, nos jogos de amarelinha (“maré”), dentre outras brincadeiras que já não mais se veem. Na verdade, quero despertar Vitor e Pedro para os pequeninos encantos da Vida. Tenho certeza de que nunca viram flores tão pequeninas… Nos interstícios das pedras seculares que pavimentam ruas de minha cidade histórica, a Primavera acontece precocemente, de forma inusitada: minifloradas singelas enfeitam as ruas, apresentando florezinhas de quatro ou cinco pétalas, dependendo de sua espécie e da época do ano. Têm mais ou menos um centímetro. E penso que, pelo fato de serem minúsculas e “espertas”, entenderam que, para sobreviver, têm que crescer no tamanho exato, na altura ideal, de forma que pés não as pisem nem as matem; e nem que rodas de carros ou de caminhões as esmaguem. São miniflores, felizes em ser e em estar ali, bem ali, enfeitando as pedras dos becos e ruas.

            O funcionário da Prefeitura vem todos os anos, parecendo um astronauta: máscara, luvas, roupas especiais e, com sua máquina repleta de herbicida, cumpre o seu trabalho de erradicar o capim que costuma crescer por ali. Uma só aplicação é o bastante: todo o verde teimoso é queimado e vira pó sob os pés das pessoas.  Mas as florezinhas, quando recebem o borrifar mortífero, passam por um estranho amadurecer: amarelecem e, num apego fantástico à Vida, em poucos dias se autossemeiam nos “canteirinhos” permanentes, onde fazem questão de crescer, de viver e continuar, antecedendo, posteriorizando e perpetuando a Primavera em cada Estação.

            Este delicado espetáculo de beleza e de graça está bem ali, bem aqui, nas ruas de minha cidade: miniflores em tons que variam entre o branco, o rosa, o lilás e o amarelo, e que pequeninas, delicadas, pedacinhos de Sonhos plantados por Deus, colorem as fendas entre pedras e também as muitas frestas de Ilusão existentes na alma do Poeta.

            Nunca nascem com as mesmas cores ou nos mesmos lugares: é que por habitarem os interstícios, sofrem a ação das muitas águas, na estação chuvosa. Moram em ruas estreitas, seculares e medram em leitos ora planos ora não, sobrevivendo também nas muitas ladeiras. E, por serem teimosas em Ser, a Mãe-Natureza as transporta e replanta carinhosamente em outros lugares, na mesma cidade.

            As Estações cirandam na Rosa dos Ventos, e novamente meus pés recebem o carinho de flores e meus olhos sorriem com as cores repletas de Vida e de Deus. “Quem tem olhos de ver, que veja…” ”Quem tem ouvidos de ouvir, que ouça…” O Criador ainda tem esperanças nos Seres Humanos e enfeita-lhes o caminho, esparzindo Beleza entre a matéria inerte das pedras, tornando-as, sobremaneira, graciosas. E como isso é bom… Já é quase agosto, ainda é Inverno, mas a Primavera já se anuncia agora nas florezinhas de quatro pétalas… Será que outros olhos já “namoraram” as mesmas floradas nas pedras das ruas antigas de minha cidade? Quem também as descobriu e amou? Há quanto tempo existem ali? Será que vieram numa caixinha de joias de alguma sinhazinha sensível, na época do Império? Nas botas de bandeirantes fundadores da cidade?… 

Curiosamente, um dia depois, sonhei com uma menina  morena de mais ou menos uns 8 anos, que me apareceu em uma rua muito antiga, calçada com pedras grandes. Ela trazia um embornalzinho à tiracolo, do qual ia tirando a mãos cheias, alguns cisquinhos… Indaguei-lhe o que era aquilo que jogava na terra vermelha da ruazinha… Ela me disse que estava plantando flores. (“Mas plantando flores na rua… seriam pisadas, com certeza…”)-pensei. Quis saber como se chamava. Quando perguntei-lhe o nome, disse-me: “- Chica”. Perguntei-lhe onde morava e ela apontou para uma colina, onde encontravam-se casinhas de sapê, irregularmente construídas algumas casinhas de sapê, perto de um local que irradiava uma luz difusa

Houve uma estranha transmutação naquela luz, que foi esmaecendo, deixando transparecer uma pequena igreja e sua cruz anunciadora. Acordei e sentei-me na cama… Amanhecia. Foi quando tive um lampejo revelador: a menina era Nhá Chica na infância!… E como ainda não podemos precisar a idade das florezinhas, há a  possibilidade de terem sido trazidas dezenas de sementinhas nos guardados de Nhá Chica, que aqui viveu no século XIX, de 1808 a 1895, 1ª afrodescendente leiga, recentemente beatificada, em 4 de  maio de 2013.

Na manhã seguinte, ao café, meus netos se achegaram à mesa. Fiquei surpresa quando Vitor tirou de uma caixa de fósforos várias florezinhas azuis e amarelas, dizendo que ia levar para sua casa como lembrança. Claro que também o menorzinho, Pedro, também tinha as flores, mas num vidrinho curto e de boca larga. Então não perdi a oportunidade de contar-lhes o meu sonho com a menina Chica…

Teatralizei um pouco ao falar da estranha luz azul e do surgimento de uma capelinha no meio do tênue clarão… Ouviram atentos, olhos arregalados e a primeira coisa que fizeram, quando o pai se sentou para o café, foi exatamente mostrar as flores, contando ao mesmo tempo o sonho da vovó. Vitor disse-lhe que aquelas eram flores de Nhá Chica, a santinha de Baependi.

(…)

            Sei que elas estarão sempre envoltas em uma aura de mistério, nestas ruas guardiãs de segredos históricos, nos canteirinhos-interstícios, lindas como nunca e como sempre. São especiais em sua efemeridade…

            São encantos em flor da História pretérita e presente, sem data específica, indubitavelmente… Devem guardar em sua memória genética muitas histórias de minha terra… Que possam estar sempre por aqui, no futuro, nesta minha “Cidade-Ternura”, sendo amadas e admiradas, eternamente, por outro alguém vindouro, talvez algum descendente com alma de Poeta…

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